Mas o que vem a ser sustentabilidade de fato? Imaginar um mundo limpo e próspero é desejável, mas para poder construí-lo certamente é preciso entender a fundo do que trata o fundamento desta nossa utopia. Gostaria de convidar você leitor para uma viagem teórica pelos caminhos da ciência que alicerçam a idéia de sustentabilidade. Comecemos pelo fim.
Qual é a definição de sustentabilidade mais aceita atualmente? A definição de sustentabilidade vigente, aceita inclusive pela ONU é “Garantir as necessidade presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de garantirem as suas próprias necessidades”. Essa foi a definição construída pela comissão Brundtland, com o consentimento de cientistas, empresários e políticos. Tentou-se, com muito mérito, adequar as tendências ideológicas de dois grupos que tinham posições divergentes sobre sustentabilidade. Os ‘ecólogos fundamentalistas’ e os ‘economistas do crescimento’. Os ecólogos fundamentalistas defendiam que a economia não poderia crescer para haver sustentabilidade. Os economistas, por outro lado, defendiam que só o crescimento da economia poderia gerar inclusão social. Assim, houve uma tentativa de contemplar na definição as necessidades do ser humano com as possibilidades de extração de recursos do meio-ambiente.
Certamente todo esse processo foi um grande avanço, mas infelizmente não encerrou o debate. Como entender a garantia de necessidades respeitando o meio ambiente se as necessidades presentes na nossa sociedade variam de baldes de água a jatos particulares? E quando nós cientistas percebemos isso e começamos a falar em números e limites da biosfera, políticos e empresários nem sempre gostaram da lição da casa que disso advém. Impor limites, ou mudar os padrões de produção e consumo. Prova maior foi o fracasso do protocolo de Kioto, em que assistimos muitos políticos bradarem a favor da natureza, portanto que pudessem atender aos interesses do mercado. Ou seja, se recusaram a assinar qualquer tipo de compromisso palpável, mostrando que, infelizmente, as esferas ecológica e econômica, devido a características do nosso processo civilizatório, ainda estão em conflito.
Vivemos em uma cultura onde consumir é uma forte razão da existência social. A cultura moderna que trouxemos da revolução industrial nos leva a maximizar a produção enquanto fruto do avanço tecnológico, a fim de satisfazer uma necessidade social criada artificialmente pelos meios de comunicação. Ligue a televisão e veja os comerciais. Eu já vi propagandas vendendo máquinas para secar alface e até um restaurante que serve bifes que vem de avião do Japão. Não sou contra o consumo, mas existem maneiras de realizá-lo. A cultura consumista apoiada pela tecnologia tem sido sim responsável pelos problemas ambientais. Mas se por um lado é possível realizar lucro sem destruir a natureza – e realmente algumas empresas estão conseguindo isso – por outro, a sociedade do consumo em massa nos trouxe a uma taxa de extinção de espécies 100 vezes mais rápida quando comparada às taxas anteriores à revolução industrial. Portanto, o que importa dizer é que a civilização industrialista como a conhecemos hoje está afrontando os princípios necessários para existência dos seres vivos segundo a teoria de Darwin. Princípios que dão a real noção do que vem a ser sustentabilidade. E é exatamente sobre isso que quero tratar.
Quando Darwin percorreu o mundo no navio chamado Beagle, ele visitou grande parte dos ecossistemas terrestres. Deu voltas ao mundo, e estudou milhares de formas de vida. A primeira coisa importante que ele percebeu foi a existência da “teia da vida”. Darwin descobriu que todos os organismos vivos estão conectados e dependem uns dos outros para sobreviverem. Ele mesmo dá um exemplo quando fala que uma pequena alteração na bioquímica de uma vespa pode alterar a bioquímica de uma floresta inteira. Os seres vivos de diferentes espécies se relacionam de maneira muito complexa, nutrindo-se, fecundando-se, trocando moléculas químicas e até, como se soube mais tarde, material genético. Insetos polinizam flores, fungos tornam a terra fértil, bactérias de diferentes espécies trocam DNA... Essas relações são tão sofisticadas que até a predação chega a ser um importante mecanismo de sobrevivência para manter viva a própria espécie predada. Explico. Explosões populacionais podem gerar subnutrição, pelo fato de haver muitos indivíduos da mesma espécie competindo por um estoque finito de alimento, e a subnutrição decorrente pode gerar epidemias e extinção. A ‘teia da vida’, proposta por Darwin, é, em última análise, o que garante os recursos necessários para manter a vida na Terra em relações que vão muito além da garantia de aquisição de recursos. É através dessas infinitas relações que ela mantém-se a si mesma.
Darwin descobriu que na “teia da vida” o efeito em rede da luta pela sobrevivência não privilegia uma espécie, pelo contrário, ela favorece a todas, gerando a adaptação mútua e a criação de novos organismos. Para sobreviver, espécies se adaptam ao novo, ao hostil e ao acolhedor, em todas as possibilidades que o ambiente orgânico e inorgânico permite. E isso envolve uma maneira e um tempo próprios, compartilhados com as estações do ano, com o dia e a noite, com os ciclos naturais ao longo de milhares de anos. Tudo isso resulta em biodiversidade durante o processo de evolução. A evolução é o sentido da vida. É a adaptação evolutiva que suporta a existência da ‘teia da vida’ ao longo do tempo. O ser humano faz parte desta “teia da vida” e não pode viver sem ela. Ele tem um papel a cumprir dentro dela, e esse papel só é possível de ser cumprindo quando ele colabora para o propósito desse processo.
Para entender mais a fundo o papel do ser humano no processo evolutivo, é preciso ainda reconhecer uma diferença fundamental entre os seres humanos e os outros animais. Os seres humanos possuem função simbólica, e com isso geram cultura. E a cultura, dada a sua plasticidade de resposta, parece ser a ferramenta adaptativa mais poderosa que existe na natureza.
A cultura humana ao longo de milhares de anos, em diversas sociedades, garantiu não apenas a vida do homem, mas, junto com ele a de milhões de espécies. No processo evolutivo todos garantem a sobrevivência de todos. Quem nunca viu a famosa foto da índia dando um peito a um porquinho do mato e o outro ao seu próprio filho? Os índios no Xingu explicam em rituais mágicos para uma árvore que ela precisará ser cortada, dizendo a ela que a tribo precisa de uma canoa para pescar e alimentar os pequenos. Há respeito e noção de sagrado perante a natureza. Ela não é vista como uma fonte para se extrair recursos, e sim, como um habitat onde recursos são compartilhados. Cumpre-se assim o papel na “teia da vida”, ao caçar, impulsionando a evolução de outras espécies, ou na coleta de frutos, disseminando sementes, entre tantos outros exemplos possíveis. As sociedades que sobreviveram por milhares de anos, só o conseguiram porque impactaram o ambiente num ritmo compatível, assimilável, pelo processo evolutivo dos outros organismos.
Não obstante, da mesma forma que uma espécie variante pode vir a não se aptar, a cultura também pode criar padrões de comportamento que a seleção natural vai descartar primariamente ao longo do processo evolutivo. Padrões culturais que não se encaixam nas possibilidades permitidas pela ‘teia da vida’ tendem a ser eliminadas. E como foi dito, a adaptação não trata simplesmente de extrair recursos do meio. Ela está muito mais ligada ao papel conjunto no ecossistema. Nesse sentido, a adaptação é sinônimo de geração de biodiversidade, e a cultura industrialista, dadas às evidências de destruição da biodiversidade, parece não ser adaptativa no longo prazo.
Do ponto de vista biológico, uma cultura só pode sobreviver na medida em que colabora para o processo evolutivo do todo. Vale lembrar da definição de sustentabilidade adotada pela nossa sociedade. Ela é entendida parcialmente e omite a palavra natureza na definição. Além disso, é interpretada através de uma postura mercadológica. O senso comum a entende como uma garantia de recursos para o homem, como se a natureza pudesse ser um supermercado que nunca pode fechar, quando na verdade o seu entendimento deveria estar focado nas possibilidades de interação da vida com a vida. Por isso, costumo dizer que antes de garantir recursos, sustentabilidade é colaborar para a riqueza da “teia da vida”, da maioria das espécies da biosfera. O ato de garantir recursos é o resultado natural disso, e não a razão primeira da sustentabilidade. Se respeitarmos a biodiversidade não será preciso ‘garantir recursos’, eles sempre estarão abundantemente disponíveis.
Em termos científicos, sustentabilidade é o resultado de uma cultura que gera ou mantém biodiversidade.
Cabe ao ser humano, com sua razão, decidir quanto e que tipo de biodiversidade ele vai permitir que o planeta sustenha tendo em vista o padrão de consumo que adota para si. Ou ainda, descobrir de quanta biodiversidade o planeta necessita para garantir a sobrevivência desse mesmo ser humano em função de uma cultura.
Perante esse problema, como o ser humano vai inserir as demais formas de vida na sua tecnosfera? Como a nossa tecnologia mecânica e eletrônica se integrará a grande tecnologia organísmica da biosfera? Essas são perguntas que estão diretamente ligadas à noção de sustentabilidade, e que, infelizmente, não são tratadas com freqüência na mídia.
Até quando a mídia vai educar as novas gerações nos programas ambientais e vender sabão em pó à base de soda cáustica nos comerciais desse mesmo programa? Não quero postular uma visão infantil das coisas. Hoje, ainda, precisamos do padrão de consumo que possuímos. Não se trata de revolução. Evolução é a chave do enigma. Também acredito que a democracia e o livre mercado são as formas mais viáveis de organização político-econômica que dispomos, mas não me parece inteligente crer que essa é a forma final, ou ainda, que não precisemos revê-las profundamente. Transformações dessa monta levam gerações e só são possíveis através da educação.
A escola deve munir os alunos de conhecimento para enfrentar a vida e os problemas que tempo histórico apresenta. A educação ambiental é fundamental nesse sentido. De que adianta formar um alto executivo, se todo trabalho e eficiência dele não geram uma sociedade mais justa? Um meio ambiente mais limpo? Ora, que seja um presidente de empresa, um político ou empresário cuidadoso com as formas de vida que o cercam. Que seja um líder justo e sábio.
Só a educação pode transformar nossos padrões de consumo de maneira que nossa cultura se torne adaptativa do ponto de vista evolutivo, e que se garanta o mantenimento da biodiversidade por razões que já tratei aqui.
O resultado do trabalho de cientistas como Darwin, foi sem dúvida a visão sistêmica da natureza. O reconhecimento da sua complexidade, da sua delicadeza e de sua força, mas acima de tudo, de sua viabilidade existencial. A ciência é um instrumento racional que pode nos ajudar a construir um futuro desejável. É essa uma possível contribuição da ciência na educação dos nossos alunos, desde a infância até a idade adulta. Nós, educadores, podemos mostrar os reais fundamentos da noção de sustentabilidade que a sociedade tem adotado. Dar, através do conhecimento, o livre arbítrio perante as necessidades de consumo a que somos sujeitos. Fazer valer a função real do conhecimento, que é trazer liberdade de ação ao espírito humano.
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